segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Fanatismos e suas consequências

Por Dom Anuar Battisti, Arcebispo metropolitano de Maringá
o
o
..........Diante da realidade, vejo que não existe só fanático religioso ou de futebol. São muitos e mais graves os fanatismos que nos rodeiam, fazendo de nós objetos de joguetes nas mãos de alheios, escravos das máquinas. O nosso ser gente, pessoa, com coração e sentimentos humanos para humanizar as relações, é substituido pela frieza da técnica cada vez mais ágil e cheia de surpresas.
..........A civilização da máquina, dos computadores traz um ingrediente tremendamente perigoso, chamado fanatismo. Os relacionamentos entre pessoas acabam acontecendo online. O Orkut, MSN, Twitter, blogs, etc. vem substituindo o contato humano de coração a coração.
..........O fanatismo tecnológico acaba com a vida das pessoas que necessitam de afeto, carinho, calor humano. Caminhamos para uma desumanização cada vez maior. O ser humano cercado de botões e automatismos perde o sentido profundo de ser gente; isso tem sabor de morte.
..........Outro fanatismo, não menos pior, é o fanatismo político. As comunidades marcadamentes cristãs são levadas a viver, não só durante o pleito eleitoral, mas depois e por muito tempo, as chagas da divisão, do ódio, da inimizade.
..........A luta por partidos, a defesa ferrenha de candidatos, por puro fanatismo, como se fosse a única verdade, o único candidato verdadeiro e justo na face da terra, cria e continua criando verdadeiro clima de guerra.
..........Pessoas amigas, parentes e vizinhos já não se conhecem mais depois das eleições. Essa é a consequência mais forte e lamentável que fica na sociedade e na Igreja. Por mais cristão que seja, por mais abertura que se tenha, por mais liberdade que se promova, sempre fica a marca diabólica do fanatismo político sem razão e muito menos coração.
..........Não de hoje e nem de amanhã, assistimos verdadeiras guerras promovidas pelo fanatismo religioso. Como entender que pelo fato de eu crer de modo diferente, de cultivar um sentimento religioso que foge às convicções de outros, ou até do que é mais sagrado para mim, eu tenha que ser exorcizado da face da terra?
..........Como entender hoje que, em nome de Deus, se deve matar ou morrer? No meu pobre entender, não tem outra explicação do que o fanatismo criado pela visão obtusa da verdade para mim. Com que direito, em base a que verdade se justifica a exclusão, o preconceito, o julgamento de quem se salva ou não, e até o direito de matar ou morrer só porque me fechei em uma única e pura verdade para mim?
..........Certamente não existem parâmetros para justificar na nossa cultura, que alguém seja tomado pelo poder do fanatismo religioso, e comece a estabelecer aqui na terra o julgamento dos homens e do mundo. Só tem um único e eterno Juiz. Aliás, Ele é a Justiça.
..........Diante deste quadro que poderia continuar a ladainha dos fanatismos, quero aqui recordar que fomos criados homens e mulheres à imagem e semelhança de Deus, para sermos livres, a fim de viver a vida na sua dimensão mais humana possível.
..........Podemos estabelecer critérios, normas, estilos de vida, jeitos de viver sem ignorar tudo que existe de mais moderno e técnico.
..........Porém, o resgate cada vez mais urgente do valor da pessoa, do humanismo cristão, que tem sua raiz no amor humano, no afeto, no carinho, no sentir o outro como gente, fará com que, na força do amor gratuito e generoso, que vem daquele que é o Amor, se viva a verdadeira vida.
..........Assim teremos um mundo onde a cultura da vida triunfará sobre a cultura da morte. Sem fanatismos, com a mente e o coração abertos, podemos começar a amar de verdade.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Votar não é tudo

Por Dom Anuar Battisti, Arcebispo Metropolitano de Maringá
o
..........Estamos em plena reta final do pleito eleitoral de 2010. Cada qual se define por um ou outro candidato, conforme a sua consciência e seu compromisso com a construção de um país mais justo e digno para todos.
..........Agora existe campanha, candidatos, partidos, propagandas das mais variadas, etc.
..........Mas depois, serão quatro anos onde não valerão as disputas e nem mesmo se sou deste ou daquele partido. Após as eleições deve existir uma única bandeira, um único objetivo: a defesa e promoção do bem comum.
..........A missão de cuidar do bem comum será dos eleitos e dos eleitores. Diante dessa atitude democrática e cidadã, "o primeiro significado de participação deveria ser a possibilidade de todos os cidadãos estabelecerem um diálogo constante com seus representantes eleitos, chamando-os a responder de maneira precisa pelas decisões tomadas.
..........Afinal, que qualifica o sistema representativo, a relação política fundamental, é a que se estabelece entre o eleito e o eleitor. É uma questão de responsabilidade à qual os eleitos deveriam procurar responder durante todos os seus mandatos e não apenas nas vésperas das eleições" (Revista Cidade Nova nº7, julho 2010, pág. 13).
..........Nesta perspectiva, ainda estamos muito longe do ideal. Não por falta de vontade dos eleitores e sim de mecanismos que possibilitem um real diálogo e até mesmo uma livre contestação.
..........Assim todos nós eleitores temos os grave dever de votar, porém a consciência do voto, a confiança depositada, será correspondida a partir do compromisso de acompanhar, cobrar, dialogar, exigir e principalmente orar.
..........Não importa se o meu voto elegeu, não importa quem está na condução dos destinos de nosso país. O nosso dever como cidadãos é participar, também rezando.
..........O Apóstolo Paulo assim nos diz: "Antes de tudo, recomendo que façam preces e orações, súplicas e ações de graças, por todos os homens; pelos que governam e por todos os que ocupam cargos, a fim de que possam levar uma vida tranquila e serena, com toda piedade e dignidade" (1Tm 2,1-8).
..........Tenho a impressão de que essa integração entre fé e vida ainda está longe de ser realidade. O Criador e Pai fica na esfera do desconhecido. Orar, suplicar, lembrar de Deus, parece que apenas existe para convencer o eleitor.
..........Igino Giordani, uma das grandes vozes do século XX no campo da política, define que a "democracia precisa de uma alma: "a fraternidade". Giordani defende que a criação de instrumentos de maior participação dos cidadãos representa uma estratégia decisiva para ampliação da qualidade das democracias modernas.
..........Essa participação, segundo ele, é capaz de produzir resultados determinantes para a melhoria da vida política. Resultados que ainda não foram verificados nas nossas democracias devido, justamente, à ênfase dada, quase que exclusivamente, ao momento eleitoral" (Revista Cidade Nova nº7, julho 2010, pág. 13).
..........Votar não é tudo. É apenas o começo de um processo que vai culminar a co-responsabilidade democrática e na integração entre eleitos e eleitores.
..........Que o Brasil, ao completar jubileu de prata como Estado Democrático, neste ano, sirva de exemplo e testemunho de uma verdadeira e frutuosa democracia, neste continente latino-americano que se vê um pipocar de ideais socialistas sem consistência.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A vida dos jovens na América Latina

Por Dom Anuar Battisti, Arcebispo metropolitano de Maringá
o
o
;.........Escrevo este texto da cidade de Los Teques, Venezuela, onde participo do III Congresso Latino-americano de jovens. São seiscentos jovens vindos dos vinte e dois países deste Continente da Esperança que, em 2007, o Papa desejou que fosse também o Continente do Amor.
..........Os jovens que aqui se encontram são líderes de várias organizações juvenis em seus respectivos países. Estão acompanhados por alguns sacerdotes e bispos que em suas conferências estão diretamente comprometidos na evangelização da juventude.
..........Posso dizer que é um pequeno sinodo juvenil da América Latina para criar comunhão e unidade na Missão Continental, cujo objetivo principal é promover um verdadeiro encontro dos jovens com Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida.
..........Iluminados pelo tema: "Caminhemos com Jesus para dar vida aos nossos povos", este congresso tem como objetivo principal: "revitalizar o processo pastoral Juvenil, ação evangelizadora com e desde os jovens partindo do contexto da vida dos e das jovens da América Latina, através de uma profunda experiência de conversão pessoal, pastoral e eclesial, para que se gere a atualização das orientações pastorais como caminho de discipulado missionário para dar vida aos nossos povos".
..........O Santo Padre, o Papa Bento XVI na sua mensagem aos Congressistas diz: "Queridos jovens, que estes dias de convivência, oração e estudos vos ajudem a encontrar pessoalmente com o Senhor e escutar a sua Palavra. Não sereis enganados, pois Ele tem para todos, designios de amor e salvação".
..........O Papa está ao vosso lado e renovo a minha confiança, ao mesmo tempo peço a Deus que os acompanhem a fim de que sejam autênticos discípulos de Jesus Cristo, vivam os valores do evangelho, transmitam com coragem aos que vos rodeiam e se inspiram neles para construir um mundo mais justo e reconciliado.
..........Vale a pena entregar-se a esta maravilhosa missão. Que a Virgem Maria vos acompanhem em vosso caminhar e vos lembre sempre que não há maior felicidade que ser amigo de Cristo. Que sirva também de ajuda a minha Benção Apostólica.
..........Vejo que este congresso é realmente uma grande oportunidade para o intercâmbio de experiências, de convivência, de oração e de mútuo conhecimento na busca de ser cada vez mais jovens, discípulos apaixonados por Jesus, a fim de serem missionários entusiasmados a serviço da vida. A realidade do jovem hoje não muda muito de país a país.
..........Os problemas que mais afetam a vida dos jovens é a desagregação familiar, a pobreza, o desemprego, a falta de recursos e de perspectiva de vida e uma verdadeira experiência de Fé em Jesus Cristo. Assim muitos jovens tomam rumos completamente equivocados e se dão mal, quando não, perdem a vida de forma brutal e cruel, muitas vezes inocentemente. Esse é o mundo jovem, em que todas as instituições, família, escola, igrejas, estado, devem abrir espaços, escutar e promover os verdadeiros valores da vida e do evangelho no coração do s jovens começando na primeira infância.
..........Uma palavra que escutei muitas vezes aqui foi: "devemos acreditar no jovens", dar oportunidade, promover a dignidade e a cidadania. Na confiança e no reconhecimento de sua existência os jovens se sentem acolhidos, amados e, portanto sabem amar e valorizar a própria vida e a dos outros. O caminho é árduo e exigente. A renuncia e o saber perder em cada momentosão condições para um discipulado autêntico. Muitos jovens esqueceram que a "porta do Reino de Deus é estreita e largo é o caminho da perdição". Retorno contente e com a esperança de um mundo melhor.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Nem carne nem peixe

Por: Dom Anuar Battisti, Arcebispo Metropolitano de Maringá

.........“A origem da palavra carnaval, mais aceita é a expressão latina “Carne levare”, ou seja, afastar a carne, do latim “Levare”, “tirar, sustar, afastar”. A manifestação de sobrevivência ao inverno através de comilanças era um último momento de consumo de carne e festejos profanos antes do período de abstinência e conversão da Quaresma. “A origem da palavra carnaval para alguns, vem da expressão latina “carne vale”(adeus carne) anunciando a entrada na abstinência quaresmal.

.........Em Roma havia uma festa, a Saturnália, na qual um carro no formato de navio abria o caminho em meio à multidão, que usava máscaras e promovia as mais diversas brincadeiras. A origem da palavra carnaval seria “carrum navalis”(carro naval) interpretação contestada. ( “Curiosidades católicas”, prof, Evaristo Eduardo de Miranda, Ed. Vozes, pg. 74 e 75).

.........A regra da abstinência está em recordar que não somos só estômago. Por isso, hoje não tem sentido só não comer carne, e substituir por um gostoso bacalhau ou um belo peixe assado. Onde está a abstinência e o valor da penitência, que seria de dominar o nosso apetite diante das comidas que mais gostamos? A penitência vale enquanto sou capaz de dominar os meus instintos diante das coisas gostosas e bonitas da vida. A Igreja atualmente pede abstinência de carne apenas dois dias durante o ano, na quarta feira de cinzas e na sexta feira santa.

.........O jejum e a abstinência, não é só uma prática quaresmal, inclusive hoje se tornou uma recomendação médica muito comum, para ter melhor qualidade de vida. Também é bom lembrar que não é o que entra no estômago, que mancha o homem e sim o que sai da boca. “Não entendeis que nada do que vem de fora e entra em uma pessoa pode torná-la impura, porque não entra em seu coração…Ele disse: O que sai do homem, isso é que o torna impuro.

.........Pois é de dentro do coração humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultério, ambições desmedidas, maldades, fraudes, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo”(Mc 7,14-23).

.........O próprio Jesus nos deu o exemplo, jejuou durante quarenta dias e foi tentado (cf.Lc 4,1-13). O jejum, a penitência, a abstinência, que agrada ao Senhor está na prática da justiça, na economia solidária, na defesa dos direitos de todos, na busca do bem comum, na fraternidade de irmãos e filhos do único Deus, que se querem bem e se respeitem na diversidade de raças, credos e condição social. Essa é a proposta da Campanha da Fraternidade.

.........Assim nos recorda o profeta Isaias: “Buscam-me cada dia e desejam conhecer meus propósitos, como gente que pratica a justiça e não abandonou a lei de Deus….Porque não te regozijastes, quando jejuávamos, e o ignorastes, quando nos humilhávamos? É porque no dia do vosso jejum tratais de negócios e oprimis os vossos empregados. É porque, ao mesmo tempo que jejuais, fazei litígios e brigas e agressões impiedosas.

.........Não façais jejum com este espírito, se quereis que o vosso pedido seja ouvido no céu. Acaso é este jejum que aprecio….Acaso o jejum que aprecio não é outro: quebrar as cadeias injustas, desligar as amarras do jugo, tornar livres os que estão detidos, enfim romper todo tipo de sujeição? Não é repartir o pão com o faminto, acolher em casa os pobres e peregrinos? ….Então, brilharás tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa”(Is 58,1-9).

.........A Palavra de Deus, nos alerta para um novo estilo de vida que vai além de práticas esporádicas, que de forma externa as praticamos, mas que o coração continua sempre o mesmo. Pode comer o que você quiser a hora que quiser, porque o que vai te salvar no fim da vida, será o amor concreto aos mais necessitados.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Dia Mundial do Doente

Por: Dom Anuar Battisti, Arcebispo de Maringá

..........Neste dia 11 de fevereiro, a memória litúrgica da Bem-Aventurada Virgem Maria de Lourdes, celebrar-se-á na Basílica Vaticana o XVIII Dia Mundial do Doente. A feliz coincidência com o 25º aniversário da instituição do Pontifício Conselho para a Pastoral no Campo da Saúde constitui mais um motivo para dar graças a Deus do caminho até agora percorrido pela Pastoral da Saúde.

..........Efetivamente, com o anual Dia Mundial do Doente, a Igreja tenciona sensibilizar profundamente a comunidade eclesial a respeito da importância do serviço pastoral no vasto mundo da saúde, serviço que faz parte integrante da sua missão, uma vez que se inscreve no sulco da mesma missão salvífica de Cristo. Ele, Médico divino, “passou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo Diabo” (Act 10, 38).

..........O sofrimento humano tem sentido e é plenamente esclarecido no mistério da Sua paixão, morte e ressurreição. Na Carta Apostólica Salvifici doloris, o Servo de Deus João Paulo II usa palavras iluminadoras a este propósito.

..........“O sofrimento humano, escreveu ele, atingiu o seu vértice na paixão de Cristo; e, ao mesmo tempo, revestiu-se de uma dimensão completamente nova e entrou numa ordem nova: ele foi associado ao amor… àquele amor que cria o bem, tirando-o mesmo do mal, tirando-o por meio do sofrimento, tal como o bem supremo da Redenção do mundo foi tirado da Cruz de Cristo e nela encontra perenemente o seu princípio. A Cruz de Cristo tornou-se uma fonte, da qual brotam rios de água viva” (n. 18).

..........Já o Concílio Vaticano II evocava a importante tarefa da Igreja de cuidar do sofrimento humano. Na Constituição dogmática Lumen gentium lemos que “tal como Cristo… foi enviado pelo Pai “para anunciar a boa nova aos pobres, para proclamar a libertação aos cativos” (Lc 4, 18), “para procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19, 10), de modo semelhante a Igreja ama todos os angustiados pelo sofrimento humano, reconhece mesmo a imagem do seu Fundador, pobre e sofredor, nos pobres e nos que sofrem, esforça-se por aliviar a sua indigência e neles deseja servir a Cristo” (n. 8).

..........Esta ação humanitária e espiritual da comunidade eclesial para com os doentes e os sofredores, ao longo dos séculos, manifestou-se de múltiplas formas e em numerosas estruturas médicas, também de caridade institucional. Gostaria de evocar aqui aquelas que são geridas diretamente pelas dioceses e as que nasceram da generosidade de vários institutos religiosos.

..........E apraz-me acrescentar que, no atual momento histórico-cultural, sente-se ainda mais a exigência de uma presença eclesial atenta e escrupulosa ao lado dos doentes, como também de uma presença na sociedade capaz de transmitir os valores evangélicos de maneira eficaz, em vista da salvaguarda da vida humana em cada uma das fases, desde a sua concepção até ao seu fim natural.

..........Gostaria de retomar aqui a “Mensagem aos pobres, aos doentes e a todos aqueles que sofrem”, que os padres conciliares dirigiram ao mundo, no encerramento do Concílio Ecumênico Vaticano II: “Ó vós todos, que sentis mais duramente o peso da cruz – disseram eles – …vós que chorais… vós, desconhecidos da dor, tende coragem, vós sois os preferidos do reino de Deus, que é o reino da esperança, da felicidade e da vida; vós sois os irmãos de Cristo sofredor; e com Ele, se quiserdes, salvareis o mundo!” (Ench. Vat., I, n. 523* , pág. 313).

..........Agradeço de coração às pessoas que, todos os dias, “desempenham o serviço em prol dos doentes e dos sofredores”, fazendo com que “o apostolado da misericórdia de Deus, ao qual se dedicam, corresponda cada vez melhor às novas exigências” (João Paulo II, Constituição Apostólica Pastor bonus, art. 152). Com estes sentimentos, imploro sobre os enfermos, assim como sobre aqueles que os assistem, a salvaguarda materna de Maria, Salus Infirmorum, e a todos concedo de coração a Bênção Apostólica.

*Publicado no Jornal O Diário (11/02/10)

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Queres a paz, cuide do ser humano.

Por: Dom Anuar Battisti, Arcebispo de Maringá


..........O analista Riccardo Cascioli, relendo a mensagem do Papa, faz as seguintes considerações: “Uma educação voltada para uma 'ampla e aprofundada responsabilidade ecológica' baseia-se no 'respeito ao homem e a seus direitos e deveres fundamentais'”.

Assim o Papa retomou a questão do respeito à criação, segundo ele, essencial para a paz, em sua mensagem para o Dia Mundial da Paz, em primeiro de janeiro. Trata-se de uma homilia muito importante porque o Papa explicita, de maneira muito clara, as bases que devem fundamentar a ecologia humana. “Não é possível” - diz o Papa - “nutrir um respeito verdadeiro pelo meio ambiente sem que saibamos reconhecer no cosmos os reflexos da face invisível do Criador”.

..........O mistério da face de Deus e do homem é o horizonte no qual o Papa aborda a questão ambiental. “O homem é capaz de respeitar as criaturas, na medida em que carrega em seu próprio espírito um sentimento pleno de vida; caso contrário será levado a desprezar a si mesmo e tudo aquilo que o rodeia, a não ter respeito pelo ambiente em que vive ou pela criação” - afirma Bento XVI.

..........Há, assim, uma relação estreita entre o respeito ao homem e a proteção do meio ambiente: “se o homem se degrada, degrada-se o ambiente em que vive; se a cultura se volta em direção ao niilismo, ainda que não teórico mas prático, a natureza pagará as consequências”.

..........Paradoxalmente, portanto, para atingir o âmago dos problemas ambientais, é preciso ter em mente que sua solução não passa por uma leitura aprofundada destes problemas, mas sim pelo aprofundamento da questão humana, do valor que cada um de nós dá à vida. E mais: pelo reconhecimento que Deus habita nossos corações, para usar uma expressão do Papa. “Quanto mais somos habitados por Deus, e quanto mais formos sensíveis também à Sua presença naquilo que nos rodeia, em todas as criaturas, em especial nos demais homens”. O homem é único, dentre todas as criaturas, por ser capaz de tal perspectiva e de tal reflexão.

..........Por isso, a maneira pela qual a Igreja aborda os problemas ambientais é radicalmente diferente, até mesmo oposta, a dos movimentos ambientalistas: “Se o Magistério da Igreja – escreve o Papa em sua mensagem para o Dia Mundial da Paz – exprime perplexidade diante de uma concepção de ambiente inspirada pelo ecocentrismo e pelo biocentrismo, é porque tal concepção elimina a diferença ontológica e axiológica entre a pessoa humana e os demais seres vivos. Desse modo, elimina-se de fato a identidade e o papel especiais do homem, favorecendo uma visão igualitarista da “dignidade” de todos os seres vivos. Dá-se espaço, assim, a um novo panteísmo, com características neopagãs, que pretende derivar, da natureza por si mesma, entendida no sentido puramente naturalístico, a salvação do homem”. (Fonte ZENT do dia 06 de janeiro 2010)

..........Acrescento que, somente teremos paz na medida que consideremos a pessoa humana na sua integridade, como criatura criada à imagem e semelhança de Deus, com seus valores humanos e espirituais, amados e defendidos. Por isso que a campanha da fraternidade de 2009 escolheu como tema “A paz é fruto da Justiça”.

*Publicado no Jornal O Diário (04/02/10)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

De repente, um adeus!

.

.........Solicitara-me, insistentemente, recusei-me deste honroso mister do editor e diretor desta Revista Tradição, Jorge Fregadolli, para escrever algo sobre o Padre Francisco Robl, carinhosamente cognominado Padre Chiquinho, que nos deixara para sempre, no dia 04 de novembro deste ano, ao meio dia, quando apontavam para o infinito os ponteiros dos elógios no horário-verão do Brasil. Enfim, aceitei o reiterado convite.

..........Alguns dias hospitalizado, todos que o conheciam e o admiravam pela sua maneira, gentil, cavalheiro, padre educado ao trato com as pessoas, à altura de uma Igreja Mãe e Mestra. Todos estavam em orações suplicantes pelo seu restabelecimento, pois sua falta ser-nos-ia, permanentemente, irreparável. Ele, porém, estava preparado; tinha maturidade espiritual para o seu último chamado para a Mansão dos Justos: Em Tuas mãos, Senhor! Apto para receber a recompensa do servo bom e fiel, de ter-se doado a maior parte da sua vida como Pescador de Homens para o redil de Cristo.


Chiquinho esboça sorriso

ao abraçar sua cruz.

Eia, está no Paraíso,

feliz co'o Mestre Jesus!


..........Ele fora para o mundo eclesiástico da arquidiocese de Maringá aquilo que representou o apóstolo de Ars, São João Maria Batista Vianney, Cura d'Ars, para a igreja da França e de outros países, o Papa João Paulo II para toda a Igreja católica, cujos ensinamentos seus vigem indeléveis nesta Igreja peregrina, frutificam à catolicidade da Igreja fundada em Pedro, continuada nos Apóstolos e seus sucessores.

..........Padre Chiquinho estava à disposição da igreja que está em Maringá com o seu sorriso eloquente de felicidade, ao preparar-se dia a dia para ser o Bom Pastor na Vinha do Senhor.

..........Ele, grande na espiritualidade, contribuíra por muitos anos em sua Congregação do Sagrado Coração de Jesus, em outras dioceses do Brasil, na Igreja Particular de Campo Mourão, ocupando cargos de relevância administrativa, pároco de Jussara-PR, por dezenas de anos e, finalmente, em Maringá, nas paróquias do Divino Espírito Santo e na Catedral Basílica Menor de Nossa Senhora da Glória. Por onde passou derramara-se para todos os campos do conhecimento humano-filosófico-teológico as ciências que bebera durante sua vida de formação integral nos seminários. À catedral dedicava-se diariamente ao atendimento dos fiéis, ouvindo as confissões e nas Missas de quartas-feiras e novenas de Nossa Senhora do perpétuo Socorro, bênçãos do Santíssimo Sacramento e da água e de outros objetos de devoção.

..........Conheci-o, pessoalmente, desde os idos de 1961, quando ele, pároco em Jussara, e eu Cura da Catedral de Maringá. Quando vinha a Maringá visitar seus parentes pioneiros que trabalhavam no Posto Maluf, às vezes, era-me hóspede simpático que me edificava tanto com seu ardor de pastor e sacerdote modelar.

..........Eu com ele estabelecemos uma relação de devoto e admiração. Afirmo que tivemos uma relação de amizade fraterna, e também as visitas que lhe fazia todas as vezes que ia rever meu irmão e parentes em Cianorte, perto de Jussara. Sua casa paroquial modesta e com boa biblioteca. Sua permanente curiosidade em conhecer a diocese de Maringá, seu desejo contumaz de poder um dia trabalhar na diocese de Maringá tão carente de padres. Dia a dia passara. Dom Jaime Luiz Coelho, em insistentes convites ao padre Chiquinho para vir trabalhar na diocese de Maringá. Chegou a vez de a Providência Divina trazê-lo para dar os seus melhores anos de sacerdócio à Igreja Particular de Maringá.

..........No dia 04 de novembro, meu aniversário natalício, o grande amigo sacerdote nos deixara ao meio dia. Mas a sua figura simpática selou com o perfume de uma vida sacerdotal ilibada e com seu último sorriso deixa-nos enlutados.

..........Almoçava quando chegara a notícia de seu falecimento na Santa Casa de Maringá. Entristeci-me ao perder um amigo de muitos anos. Fiz-lhe preces ao céu pelo seu descanso eterno, pela sua feliz morada junto à presença de Deus.

..........Nosso mundo fica menor sem a sua presença sorridente, mas a aliança da arquidiocese de Maringá para com sua obra ficará eterna nas páginas clássica da História da Arquidiocese de Maringá.

..........Rilke disse quando da morte de Rodin: “Todos os grandes homens já morreram”. Padre Francisco Robl permanece vivo entre nós pelas sementes lançadas às mãos-cheias na seara de Deus.


*Publicado na Revista Tradição (Dezembro/2009)